sexta-feira, 29 de agosto de 2008


A Velha Árvore
Estás sozinha no pasto emoldurada
por uma colina coberta dum capinzal enfarruscado e coroada por um céu azul
tão intenso que dói a vista
e que se misura a teus galhos.
Copa que já foi frondosa com folhagem luxuriante onde bandos de anus, nas horas quentes do dia, descansavam empoleirados
e sombra fresca para o gado
nos dias de sol ardente do verão.
Na tua juventude dominavas soberana
este lado da estrada que passando por aqui continua mundo afora.

Um dia fostes pequeno arbusto
crescendo ao pé de uma grande sucupira
que era tua mãe e que te protegia do sol causticante,
da ventania desenfreada, da chuva de vento
e da inundação do rio.
A vegetação em tua volta te respeitava,
já prevendo a grande senhoria em que ias te formar.
Abelhas azafamadas e maribondos briguentos,
joaninhas dóceis e louva-a-deus devoradores,
voavam, caminhavam e pulavam
em tuas tenras folhas e finos ramos.
A vida corria fácil e ficaria assim para sempre.
Parecia.

Mas um dia apareceu o homem branco
montado num corcel fogoso
que pisava o mato rasteiro sem dó ou piedade.
A floresta se aquietou,
até os pássaros, companheiros teus,
emudeceram espectantes.
Quebrando a mataria avançaram, seguía-os
outro centauro de cor escura.
Jovem arbusto tu os observa desmontarem,
avançarem espatifando os galhos
e pararem a tua frente.
Ele estendeu a mão pra te ferir.
Apesar de ainda jovem já tens o mesmo aspecto que tens hoje,
dois braços abertos para um abraço,
e ele vem com a intenção
de podar um de teus braços.
De acabar com teu fraternal jeito de ser.
Mas lá do céu azul uma brisa correu entre as ramagens
e soprou o rosto barbado.
A mão que ia ferir-te sofreou e de sua boca saiu
um som como você nunca ouviu.
Não era como o rugir da onça,
o canto do bem-te-vi ou o coachar dos sapos.
Era um tremular agradável, mas as mãos
que se agitavam pareciam movidas por um vento mal.
Mesmo sem entender o que dizia sentistes
que um tormento se abateria sobre teu mundo
e encolhestes de pavor.

Quando os homens pretos chegaram
os ferros faziam tremer o chão.
Cortavam sem pena a trepadeira, os cipós, o pé de chapéu-de-couro
e os grandes angicos, cedros, angelins e sucupiras.
Tua mãe custou a cair como não querendo se apartar de ti.
Os ferros a atacavam por dois lados,
lascas cheias de seiva rubra saltavam de seu corpo forte
e caiam aos teus pés. Olhavas pasmada, nem respirávas.
E quando tua majestosa mãe caiu soltou um grito agudo
de dor e desespero de te deixar só.

Então, um homem negro, tão preto quanto o tronco do mogno
que reinava soberano nesta mata
e agora estava derreado no chão,
ajoelhou-se diante de ti e numa algaravia estranha
implorava perdão, não a você, mas à alguém poderoso
que estava representado em tua pequena figura.
Tratando-te com infinito respeito, limpou o terreno em tua volta,
fazendo um círculo protetor com a largura de duas vezes a tua altura,
fofou a terra em tua volta,
e fez um pequeno rego em torno de teu tronco.
Era para ele um altar e você, pequena e jovem árvore,
era o ídolo daquele homem.
Outros vieram e te homenagearam,
cada qual apartava os corpos despedaçados
da vegetação para mais longe de ti.
E então cantando e batendo palmas tocaram fogo em tudo.
O mato ainda vivo chiava de dor,
labaredas devoravam o verde e vomitavam cinzas e fumaça negra.

A noite chegou.
O amarelo das chamas alumiava o descampado e tu,
sozinha, como uma planta sagrada, protegida e preservada,
assistias o fim de tua antiga vida.
O calor amoleceu teu corpo e curvou o teu orgulho,
não eras melhor do que as outras plantas,
só que fostes escolhida para ficar e sofrer.
Na escuridão o amarelho acabou e o chão
ficou pontilhado de estrelas vermelhas, brazas e tições.
Então, depois de uma longa escuridão e silêncio
o sol voltou a brilhar. Houve um momento,
no meio do breu da noite, que acreditas-te que o sol não viria mais,
veio e com seus raios vibrantes ordenou-te:
Levanta, pequena árvore, e viva!
E ali começou o teu reinado sobre ninguém e coisa alguma.

Faz parte do teu caráter, você já nasceu com este talento,
ou defeito, estava em ti ainda semente, a soberba,
sentia-te dona de tudo. Então Aquele que tudo sabe,
que te conhecia antes de desabrocha em tua mãe o botão,
a flor, que se tornou você,
decidiu que tinhas muito a aprender conhecendo sofrimentos e perdas e,
se ainda ssim, não dobrasses a tua vaidade
então serias rainha de um reino átoa.
Quando menina, com tua mãe te fazendo sombra,
já te sentias mais importante que grandes gigantes
e, durante tua perda, vendo tua mãe morta,
as árvores anciãs derrubadas e os arbustos esmagados
ainda assim te sentiste especial, melhor que todas.
Por isto ficou decretado que governarias capim.

Assisti a tudo isto e ainda posso recordar cada fato
como se fosse ainda agora, também
sou mais velho que você, querida árvore.
Já vi coisas que nem te conto.
Vi este chão quando ainda nem havia plantas
e eu mesmo era parte de uma grande massa ígnea
e foi preciso passar muito tempo, levar muito sol e chuva na cabeça,
vento e rios encachoeirados para ser moldado
nesta forma redonda (não pareço o crâneo daquele negro,
o que foi morto bem debaixo de ti e que os urubus,
as formigas e os vermes deixaram assim,
como eu, como uma pedra?)
Mas de nada me queixo e tu não deves também.
São destinos traçados para todos nós por Um Maior.
Olha, lá vem o vento descendo a colina.
É um moleque safado, sempre foi.
Mexe com tudo só não consegue bolir com a gente, não?
Hi-hi-hi-hi-hi-hi-hi. Ô vida!