sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Carta a minha Neta


Quero te dizer tanta coisa
mas na tua frente fico sem palavras.
Então, venho por meio desta
te pedir pra ouvir Paulo Ricardo
cantando Olhar 43,
ele diz o que eu queria te falar.

É uma música de menino,
mas poucas letras honram tanto as meninas.
Diz que elas são misteriosas,
“seu olhar é um lago negro e fundo”,
e suas curvas o faz “derrapar, sair da estrada,
morrer no mar”.
Ela pode ser Diana, filha de Zeus (deus),
caçadora, cachorra possessiva e, ao mesmo tempo,
ser Afrodite, outra filha de deus,
amorosa, atenciosa, atenta as vontades do menino.
Mas é também Briggite, a Bardot sensual,
e Stephanie de Mônaco, cheia de pose de princesa.
Ninguém pode definir qualquer menina.

Mas tenho mais coisas pra te dizer, por isto,
peço que você escute Paulo Ricardo de novo.
Aprenda o que já sabes em tua intuição:
existem dois tipos de meninos.
O que chega e quer te levar sem muito falar.
É extrovertido, mas no fundo é quieto,
e bruto porque tem medo do teu poder sobre ele.
O outro chega de mansinho, ou nem chega,

manda flores e versos e fala de sonhos
porque pensa que conhece tua alma e teu querer.
Se você não lhe der teu coração ele diz:
Que pena! Que desperdício!
E sai todo ressentido te dando um olhar 43.

“Mas só tem esses dois tipos de meninos, Vô?”
Não! Também tem o poeta bruto e o bruto poeta.
Mas cuidado, porque vai chegar um menino diferente.
Não é de nenhum tipo que você já conhece.
Ele é quem você quer, é quem pensas que és.
Mas, por favor, dê teu coração a um lutador
ou um trovador que tenha um bom coração.
Já passou o tempo em que podia sair na mão
Com qualquer joão.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O Pássaro Livre


Não sou um pássaro preso.
Não admito ver a vida
pelas grades de uma gaiola.
Nada pode tirar a minha liberdade,
meu direito de ir e vir.
Sou um coleirinho solto
pelos caminhos do céu.
Às vezes vôo sozinho
De outras em um bando agitado.
Mas não andamos todos juntos,
nenhum está preso a um colega.
Andamos em dupla, em terno, ou quadra
conforme o temperamento de cada um
ou possibilidade de voar.
Depois de corrermos bastante
paramos para comer, beber e conversar.
Descem dois, quatro chegam em zig-zag,
logo o lugar se enche de alarido feliz.
Os olhos brilham ao ver um amigo,
os rostos se abrem em sorrisos.
Contam-se aventuras e planos.
Coisas tristes passam como um vento.
Satisfeitos e alimentados voltamos a voar.
Um mais afoito segue primeiro outros o acompanham
e em pouco a estrada está cheia deles.
Vivem para voar, o ar fresco tocando seus rostos.
Ora subimos batendo as asas vigorosamente,
o coração retumbando com o esforço,
depois embicamos numa descida vertiginosa,
o sangue ressoando nos ouvidos.
Brincamos de perseguir o outro, como crianças grandes.
Este exercício aguça nossos sentidos.
As cores e o detalhes ficam mais definidos.
Quando passamos por um bambuzal
as astes se dobram nos prestando homenagem
e as árvores abeiram a estrada para nos ver passar.
As folhas ficam tão nítidas!
O furta-cor da imbaúba, as folhinhas da sibipiruna

e as flores do ipê amarelo ficam tão vivas!
E os sons da Natureza?
O chiado persistente da cachoeira escondida na mata,
O canto riscadinho do sanhaço, os dois pios do anu
e o trinado do canário da terra no galho alto do angelim.
Os cheiros ficam tão profundos!
O perfume da jaca madura nos enche a boca d'água,
a fragrância resinosa do eucalipto e do pinus
penetra nos pulmões limpando a poluição neles.
Nos emocionam as curvas teimosas de um rio,
o gado pastando no alto dos morros verdejantes,
as primeiras luzes da manhã quando saímos de casa
e as cores do entardecer quando regressamos.
Não, não posso ficar prisioneiro em casa!
Tenho de pegar minha bike e ganhar a estrada.
Nenhuma televisão mostra as belezas que vejo,
nem o amor da esposa e dos filhos me consegue segurar,
Então saio e corro, subo e desço como um pássaro.